Este trabalho foi realizado sobre o âmbito escolar de Luís Brito que acho interessante partilhar com todos vocês.
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O suicídio é considerado um tabu, uma afronta a todos os códigos religiosos, dado que os indivíduos lutam para sobreviver e não para se entregar ao vazio. Cada ser humano é único, com as suas qualidades, instintos, formas de prazer, busca de aventura, mas a sociedade acaba por impor uma maneira colectiva de agir. O suicídio é um acto condenado pela sociedade e não conhece limites, ocorre em todos os estratos sociais.
Segundo o que é demonstrado por estudos e pelas opiniões de pessoas, a maioria dos indivíduos que praticam o suicídio estão em grave e profunda depressão, uma falta de esperança no mundo, no futuro e em si próprio.
Suicidam-se diariamente, em todo o mundo, mais de 2000 pessoas. É um acto que vai aumentando progressivamente de ano para ano, embora muitos actos que tecnicamente são suicídios acabam por ser estatisticamente contabilizados como acidentes. Por exemplo, nos EUA, o número oficial de mortes por suicídio é de 30 000 por ano ou quase 100 por dia.
Como refere Gia Carneiro Chaves num artigo, “o suicídio é muitas vezes uma solução patológica para um angustiante problema que a pessoa considera intransponível, cuja ferida se arrasta numa dor insuportável e culmina mais tarde numa depressão gravemente patológica que conduz ao terminus da vida”.
A palavra suicídio vem da expressão latina “sui caedere”, que significa “matar-se”, e foi utilizada pela primeira vez em 1717 por Desfontaines. Por vezes designado como “morte voluntária”, “morte intencional” ou “morte auto-infligida”, na língua portuguesa esta palavra significa o acto deliberado pelo qual um indivíduo possui a intenção e provoca a própria morte. o «suicídio» pode alcançar-se pelas próprias mãos, com o auxílio de terceiros ou colocando-se a pessoa, voluntariamente, em condições de a morte ocorrer.
Este é um fenómeno especificamente atribuído à raça humana. Tanto quanto se conhece, apenas o ser humano poderá desejar este tipo de morte, e matar-se a si próprio. Apesar de alguns animais se comportarem de uma maneira que lhes provoca a morte, não há provas que tal esteja relacionado com uma vontade própria de morrer que lhes esteja inerente. Apesar de este ser um acto principalmente individual, existem casos de práticas deste género em grupo, nomeadamente no contexto de seitas religiosas ou de grupos suicidas on-line. Por vezes, acontece também, o suicídio comum de duas pessoas, que usualmente estão ligadas afectivamente. É um acto que se consuma com a convicção “de que a morte em comum proporcionará uma união feliz depois da morte (…)” (Stengel, 1980). Este tipo em especial denomina-se Pacto de Suicídio, sendo extraordinariamente raro que aconteça. Os métodos de que o indivíduo dispõe para consumar o suicídio são poucos, pelo que a sua escolha depende principalmente da sua disponibilidade no momento. Eis alguns deles, de acordo com Lopes-Cardoso (1986):
→ Afogamento ou submersão;
→ Tiro com armas de fogo;
→ Deglutição de corpos estranhos;
→ Precipitação1;
→ Despedaçamento2;
→ Electrocussão;
→ Enforcamento ou estrangulamento;
→ Intoxicação por gases;
→ Instrumentos Perfurantes e Cortantes;
→ Incineração;
→ Envenenamento;
→ Etc.
A maioria dos actos suicidas é praticada em condições que permitem o socorro ao suicida mais ou menos imediato. A ausência de precauções para evitar sobreviver demonstra que geralmente o suicídio não é uma acção ponderada e meditada, mas sim algo impulsivo. O suicida poderá também deixar ou não, uma nota de suicídio.
Geralmente o suicídio não se pode prever, mas existem alguns indicadores de risco que se podem detectar numa pessoa que o pretenda cometer:
→ Depressão, melancolia, grande tristeza, desesperança e pessimismo (falar muito na morte, tudo parece negativo, perdido…);
→ Insucesso escolar, especialmente se acompanhado de angústia e tentativas de melhoria de resultados, mas sem sucesso;
→ Apatia pouco usual, letargia, falta de apetite;
→ Insónia persistente, ansiedade, grande impulsividade e agressividade;
→ Abuso de álcool, droga ou fármacos;
→ Dificuldades de relacionamento e integração na família ou no grupo;
→ Afastamento ou isolamento social;
→ Dizer adeus, como se não o(a) voltássemos a ver;
→ Oferecer objectos ou bens pessoais valiosos sem razão aparente;
→ Luto pela perda de alguém próximo;
→ Historial de suicídios na família;
→ Outros agentes. Doenças físicas como o cancro, a epilepsia ou a SIDA; ou doenças mentais como alcoolismo, dependência tóxica e esquizofrenia, compõem alguns dos motivos que induzem um indivíduo a atentar contra a sua própria vida. Algumas situações sociais também conduzem ao suicídio, como por exemplo o insucesso no matrimónio ou não ser casado, não ter filhos, não ser religioso, o isolamento social ou o fracasso financeiro. A depressão também está aliada às causas dos casos de suicídio.
Porém, no auge das crises depressivas o indivíduo fica menos vulnerável a tais tentativas. Isto porque a depressão é caracterizada principalmente pela desmotivação, desinteresse e letargia do raciocínio. Nesse momento, o indivíduo não se dispõe a nenhuma actividade, inclusive o acto de se matar. Alcançado este estágio, a tendência é a omissão, que também é considerado uma das formas de suicídio. Importa ainda acrescentar que, do ponto de vista do indivíduo, o suicídio não é visto como um fim para tudo. Pelo contrário, ele é visto como a única alternativa possível para uma determinada situação considerada insuportável, e aparentemente sem resolução.
O ser humano, quando inserido nos diferentes grupos sociais, oferece-lhes toda a complexidade que o caracteriza e que está na sua natureza. A família, como grupo elementar que é para cada indivíduo e para a Sociedade, quando confrontada com a morte, reage de acordo com as suas especificidades. Mesmo quando o confronto é com as diferentes situações que podem levar um indivíduo a lutar pelo direito a morrer, essas especificidades não esmorecem. Na sociedade, o suicídio é pois tratado como um autêntico tabu4. É algo que as famílias preferem esquecer e que quem já tentou quase sempre oculta dos outros.
“As atitudes em relação ao suicídio estão estreitamente relacionadas com ideologias de morte. Isto explica as similaridades e diferenças entre as reacções de diversas sociedades perante o suicídio. A sociedade também considera o suicídio permissível em certas condições.” Deve-se ter em conta que o facto de o Homem se arrogar em escolher a hora da sua própria morte, é um acto de rebeldia, não só contra as concepções que a sociedade tem como mais queridas para si, como é desafiar o próprio poder de Deus e da religião.
As reacções à morte voluntária variam pois de cultura para cultura e de religião para religião. É uma acção que varia entre ser vista como uma via de libertação ou como um pecado gravíssimo. No Japão, por exemplo, desde a antiguidade que o suicídio é aceite
na sociedade, considerando-se uma maneira de exprimir a coragem e o autodomínio. É pois um acto honroso para quem o pratica.
“O buraco negro e medonho do aniquilamento, revolta e causa medo e aqueles que nele se precipitam voluntariamente são tidos como loucos. Mas essa recusa colectiva e individual não será ditada pela invencível repulsa de cada um poder evocar um destino que inelutavelmente sabe será seu?”
Luís Brito
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